Como o consumidor de vinho vai lucrar com o acordo Mercosul-UE

Com a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o mercado brasileiro de vinhos nunca mais será o mesmo. A médio prazo os consumidores vão poder brindar com rótulos importados mais baratos. O ranking de países que mais exportam para cá também deve mudar substancialmente. Enquanto isso, os produtores nacionais vão ter muitas dores de cabeça para se adaptar ao novo cenário, com uma concorrência de fora vindo para cá com apetite renovado.


No caso dos preços, é preciso ter um pouco de paciência. Manchetes apressadas falam em quedas imediatas de valores, com vinhos importados ficando R$ 5 ou R$ 6 mais baratos nas gôndolas, ou rótulos de R$ 200 despencando para R$ 150 quase da noite para o dia. Não é bem assim. A realidade tributária brasileira é tudo, menos simples.

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Expectativa de queda de 40% a 50% nos preços de rótulos europeus a médio prazo (Reprodução/VEJA)

Hoje, o vinho europeu paga cerca de 27% de imposto de importação. Esse número, frequentemente citado de forma isolada, ignora uma cadeia de tributos que incidem em cascata e podem elevar a carga total para algo entre 35% е 40%. Com o acordo, a eliminação gradual desse imposto – combinada à reforma tributária, que prevê a substituição da atual colcha de retalhos por dois tributos principais (CBS e IBS) – muda completamente a base de cálculo.

Na prática, a redução não será imediata. O cronograma prevê um período de até oito anos para a implementação plena. Ainda assim, no horizonte de médio prazo, o impacto pode ser expressivo: estima-se que vinhos importados possam chegar ao consumidor brasileiro com preços entre 40% e 50% menores do que os atuais, independentemente da faixa de valor.


Isso significa que tanto um vinho simples quanto um grande rótulo europeu se beneficiariam da mesma lógica tributária. “Um Chablis que hoje custa entre R$ 400 e R$ 500 poderia chegar à casa dos R$ 300. Para quem já consome esse tipo de vinho, o efeito não é trocar de categoria, mas ampliar o poder de compra: duas garrafas no lugar de uma”, diz Fabiano Maciel, sócio-fundador da Interbev e consultor internacional do setor de vinhos com mais de 20 anos de experiência em projetos no Brasil, Europa e Américas.

Fabiano Maciel, da Interbrev: previsão da chegada de vinhos europeus com preços extremamente competitivos (Divulgação/VEJA)

Já no segmento de entrada, como se chamam os vinhos mais simples, o cenário é ainda mais disruptivo. “Há vinhos europeus que saem da origem por menos de 1 euro a garrafa e que, com o novo desenho tributário, poderiam chegar ao varejo brasileiro por algo próximo de R$ 15. São vinhos com denominação de origem, boa qualidade e preço imbatível para a realidade nacional”, completa o especialista, citando cálculos que fez para seus clientes, como as Denominações de Origem espanholas Castilla-La Mancha e Aragón Exterior.


Devido a essas oportunidades geradas pelo acordo Mercosul-EU, o mapa de origem dos vinhos vendidos aqui deve mudar. A dobradinha Chile e Argentina, países protagonistas entre os vinhos mais importados no mercado brasileiro, está com os dias contados. Segundo Maciel, a nova dupla de ataque ao consumidor por aqui deverá ser Portugal e Espanha, já que os vinhos dessas nações vão desembarcar a preços muito mais palatáveis.

Para os produtores nacionais, o cenário é bem mais complexo. Hoje, a tributação sobre o vinho nacional pode chegar a cerca de 70%, enquanto vinhos importados do Chile e da Argentina e, em breve, da União Europeia ficam em patamares muito inferiores. Não se trata de protecionismo, mas de igualdade de condições. O produtor brasileiro já compete em desvantagem e tende a perder ainda mais espaço.


Eu mesma assisti na virada do ano aos espumantes brasileiros produzidos pelo método champenoise, que faz a segunda fermentação na garrafa, nossa primazia, com valores entre R$ 85 e R$ 130, perder espaço para cavas espanholas de segunda (ou terceira) linha, muito mais baratos, na casa dos R$ 35. “Para o consumidor médio, que ainda compra vinho majoritariamente por preço, a escolha tende a ser óbvia”, corrobora Maciel.


No entanto, há quem veja no acordo uma oportunidade de amadurecimento forçado para o setor. Mais concorrência exige mais profissionalização, gestão, eficiência comercial e clareza de posicionamento. Só que isso demanda investimento especialmente em áreas historicamente negligenciadas, como vendas, prospecção, exportação e, sobretudo, comunicação.

Uma das poucas soluções de curto prazo discutidas no setor seria o enquadramento do vinho como alimento, modelo adotado em países como a Espanha, o que reduziria drasticamente a carga tributária sobre o produto nacional. A proposta, porém, esbarra na baixa articulação política e na falta de mobilização do próprio setor.


No longo prazo, o acordo pode abrir portas para a exportação de vinhos brasileiros. Qualidade existe, como provam experiências bem-sucedidas no passado. O que ainda falta é cultura exportadora, visão de mercado e disposição para investir fora das porteiras. Para o empresário italiano Giovanni Montoneri, sócio do chef Benoit Mathurin no projeto Vin Du Brésil, que esteve em dezembro fazendo rodadas de degustação de vinhos brasileiros em Paris, o acordo é uma grande oportunidade. “Sem dúvidas é uma ferramenta que vai nos ajudar a baixar custos e ficar ainda mais atraente para clubes de vinhos e restaurantes, mas só ele não resolve. Digo e repito para as vinícolas brasileiras: precisamos trabalhar na comunicação, mostrar o trabalho belíssimo que vocês fazem, falar das uvas.
Sem ser reconhecido não adianta só baixar valor”, defende.

Dois exemplos de ações que dão resultados: depois do primeiro road show para apresentar vinhos nacionais na França, realizado no ano passado, o próximo evento do tipo na Europa já tem data marcada. Será em maio e passará, além de Paris, pela Itália, Suíça, Luxemburgo e Bélgica. Agora com pelo menos 15 vinícolas (a primeira rodada contou com 6). E mais: Giovanni fez questão de contar que em evento realizado na quarta-feira, 14, inaugurando o ano de trabalho na Embaixada do Brasil, em Paris, onde em outros tempos já se serviu Chablis, agora estavam nas taças o Pipistrello, um tinto encorpado feito com as uvas Merlot, Aspirant Bouschet e Petit Verdot, pela vinícola gaúcha La Grande Bellezza, de Pinto Bandeira.


O acordo UE-Mercosul não é o fim do vinho brasileiro, mas expõe, de forma brutal, fragilidades antigas. Para o consumidor, representa uma revolução positiva. Para os produtores, um teste de sobrevivência – e talvez a última chamada para uma mudança estrutural que há anos vem sendo adiada.

Por: Por Marianne Piemonte
https://veja.abril.com.br/coluna/al-vino/como-o-consumidor-de-vinho-vai-lucrar-com-o-acordo-mercosul-ue/

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